Em nenhum momento, Cira e o Velho teve a intenção de ser uma obra de referência. Eu sempre quis que este fosse um trabalho de entretenimento. Como tal, sua função é divertir e – espero – criar curiosidade sobre os assuntos dos quais me apropriei. Neste caso, alguns personagens do folclore brasileiro e o feito mais famoso e terrível de Domingos Jorge Velho: a derrota de Palmares.
Chamar de “liberdades poéticas” as mudanças e exercícios de criação que executei seria eufemismo. Eu apanhei os personagens históricos que despertaram minha atenção, as lendas brasileiras que julguei interessantes e misturei-os sem pudor ou restrição. Tudo no intuito de contar uma boa história.
O Brasil que descrevo é um personagem à parte, apenas inspirado na realidade, mas que em nada a respeita e nem é essa a proposta. Terras Novas é uma homenagem e plágio descarada do mundo criado por Tolkien. Outra homenagem é ao escritor Neil Gaiman. Em Cira e o Velho coloquei o Curupira dos dias atuais em uma situação praticamente idêntica à dos deuses pagãos nas obras de Gaiman. Quem está familiarizado com o trabalho do autor inglês, perceberá facilmente.
Não que os fatos e lendas que manipulei, transmutei e – por que não dizer? – corrompi já não fossem interessantes por si. Os paulistas, por exemplo. Longe dos heróis ufanistas magnificamente retratados por Benedito Calixto, foram homens rudes, aventureiros, cruéis e destemidos. Basicamente, eram caçadores de riquezas. Generalizou-se chamá-los por “bandeirantes” devido a histórias de que eles entravam pelo matagal e se apresentavam às aldeias indígenas ostentando bandeiras.
Na verdade, em sua ganância, esses homens lançaram-se em aventuras bem mais intensas e execráveis. Capturavam e compravam escravos, pilhavam, roubavam, guerreavam. Desbravaram o país em busca de pedras, ouro e riquezas. Geralmente, comunicavam-se em tupi e andavam aos trapos, descalços. Usavam armas de fogo, mas também arcos e flechas, tacapes, lanças etc. Suas expedições podiam durar anos e cobrir grandes distâncias. Os paulistas eram temidos.
Sobre as lendas populares que mencionei no livro, lembremos que personagens deste tipo têm muita fluidez. Ganham versões atrás de versões. Simplesmente ofereci mais algumas.
Por fim, vale assumir que Cira e sua mãe, Guaracy não fazem parte de nenhuma lenda popular, embora eu as tenha colocado como parentes distantes de Yara, esta sim personagem popular do folclore brasileiro.
Se, de alguma forma, personagens e situações descrevem fatos reais, considere uma coincidência.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A seguir, a bibliografia que consultei para oferecer a Cira e o Velho um mínimo de coerência histórica. Vale também como uma sugestão de leitura:
BUENO, Eduardo. Brasil: uma história: a incrível saga de um país. 2. ed. São Paulo: Ática, 2003.
BUENO, Silveira. Vocabulário tupi-guarani-português. 6. ed. São Paulo: Éfeta, 1998.
CASCUDO, Luís da Câmara. Lendas brasileiras. 7. ed. São Paulo: Global, 2001.
DAVIDOFF, Carlos Henrique. Bandeirantismo: verso e reverso. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Coleção Tudo é História).
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10. ed. São Paulo: Edusp, 2002.
FRANCO, Francisco de Assis Carvalho. Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil: séculos XVI, XVII e XVII. Belo
Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Edusp. 1989.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 46. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
GOMES, Flávio. Palmares. São Paulo: Contexto, 2005.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
NATIONAL GEOGRAPHIC.Bichos do Brasil. Editora Abril, 2003.
NOVAIS, Fernando A. (Dir.); SOUZA, Laura de Mello e (Org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na
América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Por fim, uma explicação que se faz necessária a quem leu o livro:
OS CARAÍBAS
“Além dos pajés, residentes nas aldeias, a vida espiritual dos povos tupi-guarani era igualmente marcada pela eventual presença de profetas ambulantes, chamados caraíbas. Apesar de estranhos à comunidade, os caraíbas exerciam grande influência sobre os habitantes das aldeias. Exímios oradores, estes profetas transitavam de aldeia em aldeia, deixando uma mensagem messiânica entre os índios. O discurso profético convencia aldeias inteiras a embarcarem em longas viagens em busca de um paraíso terrestre, uma “terra sem mal, onde a abundância, a eterna juventude e a tomada de cativos predominavam”.
MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.