Trecho

II. O Paulista


Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe nem se diferencia do mais bárbaro tapuia, mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais, tendo sido a sua vida desde que teve uso da razão — se é que a teve, porque se assim foi, de sorte a perdeu, que entendo a não achará com facilidade — até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício de suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses.
D. Francisco Lima, Bispo de Olinda

Tudo em seu rosto era assustador. Quando sorria — o que era raro —, provocava aqueles arrepios que sobem pelas costas e morrem num espasmo no alto da cabeça. Era até preferível a carranca, com a qual era um pouco mais fácil se acostumar. Trajava roupas surradas, largas e sem cores definidas. Provavelmente, quando novas, fossem menos encardidas e se ajustassem melhor. Um gibão de couro protegia seu tronco encurvado. Não resistiria a uma flecha disparada por um guerreiro experiente, mas servia contra dardos, espinhos e até alguns animais. Por ser exageradamente belicoso, usava-o mesmo quando andava pela vila. Também trazia as armas por que tinha mais afeição: duas pistolas — que mantinha carregadas e presas ao cinto — e um belo facão, enfiado em uma bainha de couro com detalhes em prata, pendurado sobre a coxa direita. O estado de conservação das armas contrastava com a degradação das roupas. Uma capa azul-escura pesava sobre suas costas e ombros. Pendurados no lado esquerdo, um bornal com pólvora, munição e uma cumbuca de água. Na cabeça, um chapéu de abas largas e dobradas que, no passado, brilhara com uma vermelhidão obscena. Depois de ter sido incansavelmente comido por insetos e tostado pelo sol, ganhara uma textura miserável e, do vermelho-vivo, passara à cor de ferrugem. Harmonizava com o rosto, que trazia as mesmas marcas de destruição, escritas em cicatrizes e rugas. Sob os olhos, duas bolsas murchas. O nariz era especialmente feio. Adunco, com narinas monumentais e a ponta grande apontando para baixo. Sob o queixo, em contraste com a pele cor de barro, despontava uma barba de pelos brancos, embaraçados e sujos. Assim também eram os cabelos.

Quando visitava a vila, todos o notavam. Tanto por sua figura sombria quanto por estar sempre acompanhado de índios ou mamelucos armados, membros de seu exército. Alguns moradores da vila apontavam em sua direção, outros simplesmente evitavam qualquer contato visual. Muitos o odiavam e todos o temiam. Era o mais eficaz e eficiente caçador de gente.

Naqueles tempos — doze anos antes da guerra que travou contra Palmares, dezoito antes de seu casamento com uma moça branca e apenas dois anos depois de ter seu arraial destruído pelos catiris –, Domingos, o sertanista, andava pelas regiões paulistas, principalmente pela vila, contratando aventureiros e levantando recursos para suas incursões atrás de escravos. Atividades assim eram comuns a boa parte dos homens daquela vila, conhecidos pelos outros de além-mar que se espalhavam pelas Terras Novas simplesmente como paulistas.

•••

Naquela tarde, com o bucho cheio de mandioca e a bolsa repleta de moedas, Domingos perambulava pela vila, negociando outra de suas entradas pelo sertão, em busca de ouro amarelo — o metal — e ouro vermelho — os índios. Por companhia, dois de seus escravos, tupis capturados há vários anos e criados para serem competentes guarda-costas. Pela lealdade que demonstravam, muitos acreditavam que fossem filhos bastardos. Não eram. Um carregava um grande arco e meia dúzia de flechas em uma mão e uma clava de madeira na outra. Tinha braços finos e uma barriga proeminente. O outro era mais alto, forte e jovem. Carregava um baú sobre as costas, com as provisões do trio.

Em suas breves conversas e negociações, Domingos conseguira promessas de provisões e recrutara vários mamelucos e aventureiros. Suas bandeiras eram conhecidas e respeitadas.

A noite se aproximava cedo naquela época do ano. Satisfeito com os negócios fechados e planejando conseguir outros ainda melhores no dia seguinte, o sertanista resolveu que era hora de procurar abrigo. Estava acostumado a dormir ao relento, mas não via necessidade de fazê-lo enquanto visitava a vila. Muitos ali lhe deviam favores e não seria difícil conseguir uma rede para repousar e um estábulo para acomodar seus escravos.

Passou por um chiqueiro. Havia reduzido o passo para admirar o tamanho dos porcos quando um assobio chamou sua atenção. À sua esquerda, a uns sete metros, escondido atrás de um carro de boi, um índio acenava. Domingos recusou-se a atender, respondendo com um gesto impaciente. O desconhecido não desistiu e continuou a chamá-lo com mais assobios. O escravo barrigudo colocou uma flecha no arco. Domingos fez- -lhe sinal para que segurasse o tiro. Foi em direção ao que o chamava, planejando acertar-lhe um belo murro na boca. Gostava dessas oportunidades para reiterar o respeito de que se julgava merecedor, tanto dos escravos quanto dos habitantes da vila.

O índio inoportuno estava embrulhado em um manto velho, que já fora branco em algum momento, mas estava sujo e pontilhado de rasgos e falhas na trama. Mal se via seu rosto. À aproximação do sertanista, saiu de trás do carro de boi e fez-lhe sinal para que o acompanhasse para perto do chiqueiro. Domingos seguiu o índio, o soco já preparado, quando o nativo virou-se e, tirando o manto de cima da cabeça, descobriu o rosto.

Domingos o reconheceu imediatamente como um caraíba com quem já se deparara numa aldeia, dez anos antes. Naquela ocasião, ele negociava a compra de uma dúzia de cativos com o cacique da aldeia e, não bastasse a teimosia do desgraçado, ainda tinha de lidar com um caraíba, que pulava, amaldiçoava, cuspia e insistia que os cativos tinham que ser devorados. Os prisioneiros que o sertanista tentava comprar eram guerreiros fortes e serviriam mais como escravos do que digeridos. Entre a ganância e a superstição, o cacique acabou cedendo à primeira, graças às ferramentas de ferro que Domingos oferecia. O caraíba tentou protestar, mas foi rechaçado pelo cacique. Frustrado, xingou, ameaçou e amaldiçoou toda a aldeia. Acabou expulso. Dois anos depois, uma peste devastou o lugar.

Domingos não tinha dúvidas de que o caraíba ainda o reconhecia. Com um meneio rápido da cabeça, sinalizou para que o escravo barrigudo recolocasse a flecha no arco. Em seguida, encarou ferozmente o caraíba. Fosse uma armadilha, com outros índios escondidos nas vielas próximas ou mesmo entre os porcos do chiqueiro, o Velho sabia que não teria chance. Conhecia a forma de matar dos caraíbas. Mas estava disposto a vender sua vida a um preço alto. Levaria o caraíba para a sepultura com ele.

O Velho acariciava o cabo do facão quando o caraíba começou a falar com uma voz pastosa:

— Vosmicê é abaiba.

A faca saiu da bainha e brilhou a poucos centímetros do pescoço do índio. O sertanista despediu-se da vida, imaginando uma horda de índios escondidos com flechas e zarabatanas apontadas para ele. Levantou o braço que segurava a faca e mirou: ia degolar o caraíba. Não era um golpe fácil, mas Domingos tinha experiência. O caraíba mostrou as palmas das mãos, numa posição de trégua, e a faca manteve-se suspensa.

— Não, não… vosmicê não se irrite — dizia o caraíba, tremendo muito.

— Que tu queres?

— Procuro um homem experiente como vosmicê.

— Para quê?

— Para lutar no mato, contra índio. Já conheço vosmicê.

— Se está querendo vingar por aquela vez…

— Não, não.

— Que quer, então? Vingança de alguma outra tribo? Vai custar dinheiro, coisa que caraíba não tem de sobra.

— Nada disso, nada disso. Falo por outrem. Alguém que pediu um homem bom em matar índio. Lembrei de vosmicê, que sabe brigar e que magia não pega.

O caraíba não entrou em detalhes, para não arriscar-se à ira do sertanista, mas a verdade é que a mesma maldição que colocara na aldeia onde o conhecera, anos antes, também lançara sobre Domingos. Não só a magia não atingira Domingos como ele prosperara.

— Quem? — perguntou Domingos, colocando a ponta do facão dentro da bainha, mas mantendo metade da lâmina descoberta.

— Isso importa? Vosmicê se interessa por duas cumbucas deste tamanho — mostrou a medida com as mãos — cheias de ouro, mais sete esposas que servirão em tudo que vosmicê quiser?

Domingos baixou lentamente o braço que segurava a faca. Olhou em volta. Seria uma artimanha do caraíba para salvar o pescoço? Se algum índio escondido pretendesse acertá-lo, já o teria feito. Olhou desconfiado para o caraíba e falou com desdém:

— Essa é boa! Caraíba oferecendo riqueza? Pareço idiota?

— Não! Não! Já não disse que não falo por mim?

— Não importa! Tu és um caraíba safado, e não confio em caraíba! Ainda mais um que já tentou me prejudicar. Mostra algum bocado dessa fortuna.

O caraíba enfiou a mão dentro da capa. Tirou o punho fechado e o apontou ao sertanista. Em resposta aos movimentos abruptos do índio, Domingos encostou-lhe a ponta do facão no nariz. O caraíba mostrou o punho, agora trêmulo, e o abriu. Na palma de sua mão cintilaram quatro moedas de ouro com cabeças de onças entalhadas e duas esmeraldas brutas.

— As cumbucas estão cheias disto. — O caraíba sorriu.

Domingos apanhou o pequeno tesouro e o examinou de perto. Em seguida, embolsou-o. O caraíba chegou a esboçar uma reação, mas, diante da carranca que o encarava, desistiu.

— Desembucha! — grunhiu Domingos.

— É uma longa história, abaiba. Se formos até uma vendinha para encher o bucho…

— Ainda demora até que eu te dê de comer, caraíba. Tu tens três minutos para vomitar tua história. Começa!

O caraíba pigarreou e começou sua narrativa em tom dramático:

— Houve nesta terra, abaiba, uma princesa, filha de índia com um branco de além-mar. Deram à menina o nome de Maria Caninana. Com ela, nasceu Norato. Ele ama sua irmã acima de tudo, mas tem o espírito mais ruim que qualquer abaiba. Caninana se casou com um cacique poderoso, mas Norato, por ciúmes, matou Maria Caninana, seus filhos e seu marido. O espírito de Caninana vaga neste mundo, até que consiga sua vingança. Norato continua vivo, agraciado por Macurãima, seu protetor. Caninana veio sussurrar em meu ouvido, abaiba, pedir pelo auxílio de um homem como vosmicê.

— No seu ouvido, é? Que quer essa alma penada? Ela quer o tal Norato morto?

— Quer. Mas não por vosmicê. Será outro que fará isso.

— Quem?

— Não importa. Mesmo porque vosmicê não conseguiria. Norato é poderoso.

— Não sabe nada sobre mim, caraíba.

— Vosmicê é que sabe muito pouco sobre Norato, abaiba — respondeu o caraíba, imprudente.

Domingos apontou a faca para o pescoço do caraíba. O índio fitou a lâmina. Estalou a língua e suspirou, revirando os olhos. Já estava cansado do brilho indecente daquela lâmina. Amaldiçoava o sertanista em seus pensamentos, mas não os verbalizaria jamais. Temia aquele homem.

— A princesa Caninana quer que vosmicê destrua a semente de Norato… Guarde a arma, sim?

Domingos ignorou o pedido choroso do caraíba.

— Restam dois dos herdeiros de Norato — continuou o índio. — Um é o mais velho de todos e o mais forte. É um guerreiro poderoso que vive em uma maloca sobre a areia, beirando o grande mar. Tabatinga é seu nome. A outra é a caçula. Cira é seu nome. É filha da última bruxa, conhecida entre os tupis como Guaracy. As duas vivem escondidas no alto da serra, onde as árvores ainda respondem a quem souber falar com elas.

Domingos arqueou as sobrancelhas.

— Que disparate é esse que está dizendo, caraíba?

O sertanista soltou seu riso medonho e bateu com a lateral da lâmina no rosto do índio. A irritação que se acumulava na barriga do caraíba finalmente subiu-lhe à cabeça. Falou irritado:

— O homem branco, que acaba de chegar a estas terras, nunca ouviu falar das coisas que, para o homem sensato, são comuns. Só porque tem jeito mais poderoso de matar, o branco pensa que sabe tudo. São todos uns tolos, ignorantes. Vosmicê, abaiba, deve ser o pior de to…

Seria interessante descrever o debate metafísico que os dois teriam travado a respeito da diferença entre civilizados e selvagens, conhecimento e sabedoria, técnica e tecnologia. Mas, na verdade, a explosão do caraíba era tudo que o sertanista esperava. O murro reprimido finalmente se libertou e explodiu no rosto do índio, que, por sua vez, lançou um feitiço. Tal qual temia, a magia não pegou. Domingos enfureceu-se pela tentativa, rosnou e cuspiu. Vendo-se encurralado e prestes a perder a cabeça, desta vez literalmente, o caraíba engoliu seu orgulho, misturado com sangue, e passou os vinte minutos seguintes humilhando-se e implorando perdão.

Refeita a paz, voltaram a conversar sobre os detalhes da missão, que foi relutantemente aceita. Se o ouro e as esposas prometidas existissem, seria um bom pagamento. Principalmente as riquezas, pois mulheres não faltavam na vida de Domingos, acostumado que era em deitar indiazinhas ingênuas e saciar-se, fosse à força bruta ou com promessas mentirosas. Preferencialmente a primeira opção. Se a proposta do caraíba fosse uma mentira, calculou o sertanista, ao menos teria a satisfação de esfolá-lo. Marcaram um novo encontro para organizar a missão e cada um foi para o seu lado. Domingos ia fazendo cálculos e planos. Na verdade, não entendera totalmente a história que o caraíba lhe contara. Bastava saber que havia dois filhos de um tal Norato, um homem tolo o suficiente para criar inimizade com uma alma penada. Essas crias mereciam morrer. Por serem filhos de um tolo, caso não haja outros motivos. Matá-los seria fácil, rápido e permitiria juntar um bom dinheiro.

•••

Enquanto se afastava faminto e com o lábio inferior inchado, lembrança dolorosa de seu reencontro com Domingos, o caraíba remoía os acontecimentos de dois dias antes: Viu-se aproximando-se sorrateiro de uma indiazinha solitária que se banhava no rio. Pretendia abrir-lhe as entranhas para ler o futuro que os espíritos lhe haviam reservado. Suas mãos próximas ao pescoço. Sentiu uma tontura muito forte. A floresta girou e uma voz feminina, sensual, sussurrou em seu ouvido.

— Vosmicê conhece um homem experiente em matar pessoas? — disse a voz.

“Conheço muitos”, respondeu o caraíba, em pensamento. Não conseguiu evitar a imagem do Paulista que invadiu sua mente. Reconheceu o caçador de índios que o havia prejudicado anos atrás.

— Ah, sim… — deliciou-se a menina. — Já ouvi falar deste. É especial. Conhece-o?

— Que quer com ele? — perguntou o caraíba, flutuando no sonho, no nada.

— Quero que ele faça uma coisa para mim — respondeu a voz.

— Esse homem é um abaiba. Muito ruim. Não tem controle. Já joguei maldição em cima dele e não pegou.

Os ouvidos do caraíba foram tomados por uma risada maliciosa e estridente.

— Maldição? Que maldição, menino? Que poder você pensa que tem? Não passa de um tolo. Sua maldição não pega em nada. A aldeia que você pensa que destruiu… aquilo foi obra das doenças que esses fedidos de além-mar trazem em seus navios.

O caraíba sabia disso. Nunca admitiu, nem para si mesmo, mas ele sabia que sua mágica era fraca.

— Mas sua magia pode ficar forte, menino. Cumpra a tarefa que tenho para ti e te farei forte. Darei poder.

O caraíba aceitou. Poder era sua obsessão. Recebeu as instruções de que precisava em sonho.

Em seguida, trevas.

Quando acordou, sentiu na mão direita a presença das moedas e pedras. Viu a menina que espreitara. Estava de costas e o fitava por sobre o ombro esquerdo. Ela riu. Não era mais uma criança e sim uma mulher. Linda e nua. Ela levantou os braços e pulou no rio. Já não era mulher, e sim cobra.

•••

Três dias depois do encontro com o caraíba, Domingos reuniu um grupo. Com as moedas de ouro e as esmeraldas à mão para mostrar e o número reduzido de homens que contrataria, era mais simples do que uma entrada, que exigiria um contingente grande e complexo. As pequenas incursões recebiam adesões facilmente. Principalmente dos capitães já acostumados a aventurar-se com Domingos.

A comitiva partiu três semanas mais tarde. Era formada pelo caraíba, Domingos, dois capitães brancos, um negro, seis mamelucos e dez índios, entre eles os dois guarda-costas.

Além das duas pistolas e do facão inseparáveis, Domingos carregava um bacamarte e um tacape tupi que ele manejava melhor do que qualquer índio. Talvez uma herança de sangue de seus tataravôs. Trajava a mesma capa, o chapéu e o gibão com que desfilava pela vila. Acrescentou apenas um par novo de botas, pagamento de uma dívida antiga que cobrou arrancando a orelha esquerda do devedor.

Domingos era chamado de Velho pelos capitães e de Pai pelos índios e mamelucos. O negro não o chamava de nada, pois não falava. Sua língua há muito fora comida por um gato-do-mato. Pelo menos era o que dizia sua dona, uma velha viúva, herdeira de um pequeno e quase falido engenho. Ela sempre o emprestava ao Velho, o que lhe rendia bons lucros. Apelidado de Martelo, carregava pulseiras de ferro, um facão e uma pistola, com a qual atirava desgraçadamente. Seu verdadeiro poder estava nos punhos. Seu soco era capaz de entortar a cabeça de um homem, fazendo-lhe pular os olhos e explodir o cérebro. Tinha quase dois metros de altura e músculos tão fortes que pareciam prestes a estourar. Na maior parte do tempo, andava com o peito nu. Cobria-o apenas no frio extremo e, mesmo assim, somente com uma capa. Da cintura para baixo, escondia as vergonhas com uma fazenda branca, que chegava até um pouco acima dos tornozelos. Comunicava-se apenas com o Velho, usando uma linguagem de sinais rústica.

Os capitães andavam com roupas desmanteladas, mas confortáveis. O mais considerado por Domingos, chamado de Aranha, não era nascido nas Terras Novas. Viera de além–mar em busca de fortuna. Tinha braços e pernas compridos e nenhum queixo. Com seu pai, que era francês, aprendera a lutar de mãos nuas e era muito eficaz na captura de guerreiros teimosos, subjugando-os com a habilidade de seus membros e imobilizando-os com cordas e correntes, que carregava presas à cintura. O peso de suas ferramentas puxava-lhe as calças para baixo, e seu rego vivia à mostra. Carregava ainda um facão e um arcabuz, que pouco utilizava, por ser uma arma de difícil manejo e, segundo ele, de pouca elegância.

O outro era chamado de Diacho. Seu nome verdadeiro, só o Velho sabia, mas nunca o pronunciava. Tinha uma cabeça quadrada, como um bloco de barro. Se não fosse tão assustador e violento ao responder a gracejos, há muito teria recebido o apelido de Tijolo. Como tinha olhos pequenos e injetados e era descendente de espanhóis, o nome Diacho se encaixava melhor. Andava com dois mosquetes, uma machadinha e uma espada muito afiada que fazia justiça à fama do aço espanhol. Sua habilidade como espadachim não estava à altura da arma, mas, como atirador, era insuperável.

Os índios vinham de quatro etnias diferentes. A maioria, claro, era de tupinambás civilizados. Dois deles até carregavam crucifixos pendurados aos pescoços. Os mamelucos eram habitantes da capitania, conhecidos arruaceiros. Já haviam viajado com o Velho alguns anos antes. Ele era o único homem a quem respeitavam.

•••

O caraíba ia à frente, guiando-os para leste. Dissera apenas que se dirigiriam para o litoral, sem mais detalhes.

Os capitães não gostavam da amizade de Domingos com o caraíba e seu espírito feminino sussurrante. Não confiavam em entidades vingativas. Confiavam menos ainda em espíritos femininos. Para completar, tinham pelos caraíbas o mesmo desprezo que ofereciam aos jesuítas.

Os índios do bando do Velho temiam e respeitavam o caraíba, como era de se esperar. Os mamelucos quase nunca se manifestavam, mas sua opinião era uma mistura das dos capitães e dos índios.

Ninguém sabia o que pensava o Martelo.

O Velho pensava apenas nas riquezas que conquistaria.

A única opinião que todos compartilhavam era a de que o caminho para o litoral era penoso. Em nada se comparava ao asfalto de hoje. Havia trilhas abertas por índios, que os de além-mar espertamente utilizavam desde que haviam chegado às Terras Novas, mas nenhuma delas estava sendo usada por aquele bando. O caraíba os guiava por um caminho que nem os índios conheciam. A mata era fechada e pouco amistosa. Também havia animais dos mais diversos tipos e temperamentos, insetos de todos os tamanhos e apetites. Guiado pelo caraíba, os paulistas andaram muitas léguas pelas matas, sempre ao pé da serra. Atravessaram-na em um ponto mais baixo e desceram para o mar. Encontraram a costa. Até este ponto, já haviam viajado vários dias. Por pura sorte, tiveram apenas uma baixa. Um dos mamelucos, vítima de uma onça. Pelo menos, foi o que calcularam, pois ninguém realmente viu o bicho. O pobre diabo, que vinha na retaguarda, apenas gritou e, quando todos olharam, havia desaparecido. Encontraram-no meia hora depois, despedaçado. Os dois índios cristãos fizeram questão de enterrá-lo segundo sua religião. Domingos considerou perda de tempo, mas preferiu não fazer caso.

Ao avistarem a costa, viraram para o norte e seguiram a linha da praia, sem deixar a mata.

Quebrando um silêncio que já durava muitos dias, o caraíba falou com Domingos com uma voz completamente diferente da sua. A mudança surpreendeu todo o grupo. Alguns índios começaram a tremer.

— Estamos perto. Vamos descansar aqui. Amanhã, completaremos a viagem e mataremos o filho de meu inimigo.

Os capitães, igualmente supersticiosos, mas dotados de nervos mais fortes, cercaram o caraíba. Diacho logo apontou suas armas.

— Quem é tu? — perguntou o Aranha. — Não é o caraíba, é?

— Sou quem paga teu líder, homem. — Seus gestos não eram furtivos e contidos como os do caraíba. Eram afetados. Em seguida, o caraíba — ou seu corpo — sentou-se sobre a raiz de uma árvore, cruzou as pernas, apoiou as costas no tronco da planta e caiu num sono profundo. Por alguns minutos, o grupo o fitou, esperando mais alguma manifestação ou instrução. Como nada aconteceu, os homens começaram a amarrar suas redes nas árvores para dormir.

Naquela noite, nenhum deles conseguiu pregar o olho, com exceção, claro, do caraíba e de Domingos.

No dia seguinte, após comerem a carne-seca que traziam em um baú, saíram atrás do caraíba, que ainda não tinha falado nada, nem comido uma só migalha, apenas levantara repentinamente e saíra andando, numa marcha diferente, ágil e bizarra, pois fosse outro o corpo a desempenhá-la, seria sensual.

Marcharam o dia todo, num passo bem mais suave e fazendo mais e maiores intervalos. Sobre isso, o Velho resolveu questionar o caraíba. Da voz transformada, recebeu a seguinte resposta:

— Teus homens têm que chegar descansados. Hoje à noite, enfrentarão Tabatinga.

Domingos não perguntou mais nada. Não gostava de ouvir aquela voz fina e espectral do espírito de Caninana. Não por superstição. Simplesmente se incomodava em ver uma voz feminina e sensual sair da boca daquela criatura bizarra e feia que era o caraíba.

Por vezes, questionava-se se aquela aventura toda valeria a fortuna prometida, mas sempre chegava à mesma conclusão: a ganância tem argumentos com que não se consegue discutir. E punha-se a planejar a entrada que organizaria em seguida.

•••

O sol sumia rapidamente atrás da serra quando encontraram a maloca do filho de Norato. A habitação havia sido construída numa enseada, suficientemente longe da água.

O grupo escondeu-se atrás da vegetação para observar silenciosamente a presa. Podiam ver duas índias entrelaçando remendos em uma rede. Uma terceira carregava mandioca para junto do fogo, ao redor do qual brincavam dois curumins. Uma outra criança trazia um peixe recém-pescado, arrastando-o pela areia. O garoto era muito novo para perceber que o peixe era pequeno. Ainda assim, as mulheres que consertavam a rede riram, divertindo-se com sua ingenuidade e iniciativa. As que estavam dentro da maloca cantavam em uma língua que nem Domingos nem seus companheiros conheciam, mas suas vozes eram as mais lindas que já tinham ouvido. A brisa fustigava carinhosamente o telhado de palha da maloca, provocando um crepitar suave. O som do mar completava a sinfonia de paz. Ao fundo, o céu misturava-se à linha do mar. O cenário impressionava o Velho, que lutava para manter em sua alma o desejo assassino de que precisaria para completar sua missão. No céu, alguma ave soltou um grito agudo, tirando-o de seu transe. Só então olhou para baixo e notou que logo ali, junto dele, sentado sobre a raiz de uma árvore muito velha e descascada, um menino pelado o observava com olhos curiosos.

Domingos arregalou os olhos, surpreso. Como não tinha percebido a presença daquele garoto logo ali, sob o seu nariz? Desembainhou a faca e puxou o curumim pelo braço, fazendo-o levantar. Em sua orelha, o caraíba veio sibilar com a voz feminina:

— Tu encontraste um filho de Tabatinga. Não esqueça que toda a linhagem de Norato deve desaparecer.

— Conheço bem minha parte. Agora, fique quieto aí em teu canto! Onde está o defunto? Dentro da maloca? — Nem esperou a resposta. Lançou um olhar autoritário para o curumim e, quando falou, sua voz era como um escarro: — Tu, curumim, chama teu pai aqui! — Àquela altura, já conseguira convencer-se a odiar aquele moleque, que lhe chegara tão perto sem ser percebido.

O menino escutava as ordens, mas não entendia uma só palavra. Domingos falava em tupi, mas aquela era uma língua irreconhecível para a criança.

Vendo-se incompreendido, o Velho apertou o braço da criança e cravou-lhe as unhas compridas e nojentas na pele, fazendo-o gritar. Um papagaio imitou o som e voou para longe.

Todos os olhos da maloca se voltaram para a direção do grito. Os olhos do bando convergiram para a maloca, de onde saiu um guerreiro como nenhum deles jamais havia visto.

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